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O que caracteriza a literatura fantástica e por que ela ainda é tratada como gênero menor?

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura
A autora Rosane da Veiga Faria explica o que caracteriza a literatura fantástica

A literatura fantástica sempre me fascinou. Desde que aprendi a ler, fui atraída por essa literatura que dá vida aos elementos da imaginação e da fantasia, assim como a temas que não existem em nossa realidade como fatos comprovados.

Porém, o que caracteriza a literatura fantástica?

A literatura fantástica, a fantasia e a ficção científica são conceitos que podem ser diferenciados teoricamente. A primeira costuma apresentar o sobrenatural rompendo uma realidade considerada normal. Um exemplo é Os Sete, de André Vianco: uma caixa de prata é encontrada em um navio naufragado e, a partir dela, sete vampiros voltam à vida.

Na fantasia, por outro lado, o sobrenatural é normalmente incorporado à própria realidade da narrativa. Um exemplo clássico são os contos de fadas. Já na ficção científica, a narrativa tem como ponto de partida hipóteses científicas, tecnológicas ou especulações sobre a sociedade, a humanidade e o universo.

Também é comum encontrarmos subdivisões dentro da fantasia: alta fantasia, baixa fantasia, fantasia urbana, fantasia sombria, entre outras.

Porém, parte da crítica trata a ficção especulativa (termo próximo ao que aqui chamo de literatura fantástica) como uma categoria guarda-chuva, capaz de aglutinar ficção científica, fantástico, horror, fantasia e realismo mágico¹. Concordo com essa visão, porque percebo que existe uma dificuldade em seguir rigidamente essas classificações, já que muitas obras misturam diferentes conceitos e características. Por isso, considero que não existe uma separação totalmente visível entre essas categorias. Existem, sim, diferentes maneiras de escrever o fantástico.

Neste texto, portanto, utilizarei “literatura fantástica” em um sentido amplo, abrangendo diferentes formas de fantasia e também a ficção científica.

Para iniciar o assunto, gostaria de informar um fato bastante curioso: a literatura fantástica parece encontrar um público especialmente forte em outros países. No Brasil, o cenário é distinto: segundo levantamento da Folha de S.Paulo de 2019, a fantasia representa uma fatia pequena (cerca de 4%) do total das vendas de ficção do mercado editorial brasileiro, enquanto autoajuda e biografias, categorias de não ficção, seguem entre as preferidas do público. Esse padrão de consumo é reforçado por outras análises do setor, que apontam o brasileiro como um leitor historicamente mais inclinado à não ficção do que à ficção. No entanto, no ano de 2026, há a presença de uma obra de fantasia nacional entre os livros mais vendidos, contudo é uma obra voltada ao público infantojuvenil: O diário de uma princesa desastrada 4 da escritora Maidy Lacerda. Será que o brasileiro não gosta da literatura fantástica? Ou será que há um certo preconceito no mercado editorial para esse gênero? Ou será, ainda, que a visão a respeito desse tipo de literatura é superficial?

Essa última hipótese parece a mais provável. A verdade é que muitos ainda consideram esse gênero literário uma literatura de menor valor, porque o vinculam ao entretenimento, à fuga da realidade e ao público infantojuvenil, e essa ideia não existe só no Brasil. Sabe-se que apenas entre as décadas de 70 e 80 as universidades abriram mais espaço para esse tema. No entanto, como acontece com qualquer outro gênero, existem obras boas e ruins. Os críticos deveriam avaliar cada obra por sua qualidade literária, e não simplesmente pelo gênero ao qual pertence. E se o mercado editorial abrisse um espaço maior para a literatura fantástica, talvez teria uma grata surpresa.

Como considerar menor um autor como Gabriel García Márquez, que transformou o chamado realismo mágico em uma das expressões mais importantes da literatura latino-americana? Em suas obras, a realidade se mistura a acontecimentos extraordinários, muitas vezes tratados com naturalidade. Além disso, García Márquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Cá entre nós, é soberba a maneira como ele junta momentos repletos de fantasia e simbolismo à crítica social em algumas de suas obras.

O que dizer de Tolkien, criador de um universo distante da nossa realidade, construído com enorme riqueza mitológica, linguística e histórica, em sua obra de fantasia O Senhor dos Anéis? Aliás, na minha opinião, ele é o papa do fantástico.

E Isaac Asimov, que criou as famosas Três Leis da Robótica e explorou, em Eu, Robô, as relações entre seres humanos, máquinas, ética e tecnologia? Simplesmente genial, não concordam comigo?

Não vejo, portanto, como diminuir a literatura fantástica ou considerar estranho o reconhecimento que ela recebe do público.

Dentro da literatura fantástica, existe a possibilidade de apresentar tantos temas, tantas mensagens e tantas maneiras de expressar simbolicamente a realidade quanto há grãos de areia na beira de uma praia qualquer.

Há obras em que o terror é o mote; outras são envolvidas pela magia; em algumas, o sobrenatural permeia tudo. Também existem aquelas que nos conduzem por paisagens de sonho ou nos apresentam futuros distantes. Podemos ainda encontrar as lendas, narrativas provenientes da imaginação popular, assim como as narrativas mitológicas.

Particularmente, gosto bastante de diferentes formas desse gênero. Gosto de tudo aquilo que pode me tirar da realidade e do tempo presente. Assim, escrever literatura fantástica é, para mim, passear em um parque de diversões.

Além da admiração que tenho por Gabriel García Márquez e Tolkien, também aprecio a incrível imaginação e as descrições detalhadas de J. K. Rowling e adoro a estrutura narrativa criada por George R. R. Martin em As Crônicas de Gelo e Fogo.

Acredito que esses autores me influenciaram.

O autor brasileiro que mais admiro é Machado de Assis. Seu sarcasmo é maravilhoso. E ele é considerado um autor realista. Porém, o interessante é que ele iniciou seu período realista com uma obra chamada Memórias Póstumas de Brás Cubas, cuja narrativa se desenrola através do olhar crítico de um defunto sobre a própria vida e sobre a sociedade na qual estava inserido.

Algo um pouco fantástico, não acham?



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