top of page

Resenha de Tania Vernet publicada no Jornal Zero Hora



UMA AVENTURA PELO FANTÁSTICO


Árvore de família: a morte de um é a herança de outro, Ed. Buqui, 2021, é o livro de estreia de Rosane da Veiga Faria. Uma estreia ousada e ambiciosa, já que esse é o primeiro volume de uma trilogia, mas que já corresponde às expectativas.

Um homem congela durante um dos verões mais quentes de Porto Alegre. Encaminhado ao hospital, ninguém entende o que está acontecendo:

“O cara está com hipotermia, a temperatura não sobe... Num verão desses, muito estranho, mas já faz algum tempo que chegou, deve estar melhor.”.


Já em outra parte da cidade, um ourives examina um pequeno diamante negro, o principal adorno de um colar, mas não se lembra de tê-lo retirado do engaste, e se vê às voltas com um mistério. “Olhava surpreso para a mudança instantânea do resplendor cintilante e facetado para o negror baço como um pedaço de carvão”.


A partir desses fatos inusitados, a autora incursiona pelo universo do povo pomerano, seus seres fantásticos, suas crenças, sua religiosidade e sua cultura, desenvolvendo uma narrativa instigante, que prende o leitor desde o início.


A ação transcorre entre Porto Alegre, Viamão, o Templo Budista em Três Coroas, e Santa Catarina, da Praia da Daniela à região habitada pelos imigrantes vindos da antiga Pomerânia, região histórica e geográfica situada no norte da Polônia e da Alemanha, na costa sul do mar Báltico, e que chegaram ao Brasil em torno de 1860. A história dessa imigração perpassa todo o livro, com informações sobre a trajetória do povo pomerano, a essência de suas tradições, inseridas de tal forma que assimilamos sem esforço.

Narrada em terceira pessoa, empreitada não muito fácil para um autor estreante, cada personagem tem sua vez e um complementa o que outro viu/viveu.


Naara, Biba e Valentine, três primas e amigas, são as personagens que a autora nos apresenta, às quais se somam o enigmático Theodor, Petra, Lysia, Zuuren, Leonel, Vester e tantos outros, todos muito bem construídos.


Mesclam-se a eles os seres mágicos, com seus poderes e a eterna luta entre o bem e o mal. A trama vai se desenrolando à medida que cada personagem expõe seus conflitos, seus medos e seus desejos. E esses medos e esses desejos levam ao encontro de entidades sobrenaturais de acordo com a energia emanada por cada um, enredando todos em suas teias, boas ou más.


Há rituais, invocações de seres da luz ou das trevas, porque, como diz Biba, “Essas deidades da lua negra são muito antigas, elas são sábias, elas pertencem à natureza, pertencem à escuridão da noite. Assim como existe o dia, existe a noite, é natural.”

Mas não é bem assim, e ela vai descobrir isso, em sua busca incessante pelo espiritual e pelo amor.


Já a prima Naara, médica intensivista, com sua mente muito bem assentada no palpável, naquilo que por esforço próprio consegue realizar, é totalmente refratária ao imaterial e a qualquer coisa que sugira magia. No entanto, como explicar o que ela vê?

Valentine, a terceira da irmandade, sentimental e influenciável, encontra a resposta para curar suas carências nos mistérios desvendados por Theodor, o pomerano/australiano que aparece subitamente na vida de todas elas.


Assim vamos descobrindo um mundo extraordinário, em que os humanos transitam entre suas vidas cotidianas e os seres que povoam o imaterial.

“Árvore de família: a morte de um é a herança de outro”. E que herança é essa? A cultura, a língua, os costumes, as tradições, mas também objetos que passam de um a outro, levando a energia impregnada de quem os possuía.


Ler esse livro é enveredar pelas sendas do realismo fantástico, da magia, e não se pode ficar indiferente ao destino dos personagens, que carregam culpas, feridas da alma ainda abertas e supostamente maldições hereditárias.


O livro é fruto de uma extensa pesquisa levada à frente pela autora, inclusive in loco, já que visitou São Lourenço, no Rio Grande do Sul e Pomerode, em Santa Catarina, lugares habitados pelos imigrantes pomeranos. E, ainda, esteve na Alemanha, na antiga Pomerânia, lá recolhendo a ambientação cultural que muito bem soube transmitir em sua obra. Rosane da Veiga Faria fez parte da equipe da extinta revista Em Pauta, na qual seu talento para a escrita já se anunciava em seus artigos. “Árvore de Família: a morte de um é a herança de outro” é o objeto mágico que sua criatividade, determinação e perseverança construíram para o prazer de seus leitores que tenho certeza se tornarão fieis.



PDF_resenha_Árvore_de_Família_no_DOC_-_GZH
.pdf
Fazer download de PDF • 156KB


Tania Vernet

Professora de Língua Portuguesa, revisora de textos literários.

Comments


bottom of page